Em primeiro lugar é preciso contextualizar a existência de uma Bienal nestes pagos fronteriços. Criada em 1997 com a temática regional do bloco econômico Mercosul, buscava ser um contraponto da Bienal de São Paulo e formar um polo artístico regional. Porém no âmago de toda questão, ela não nascera por ter um núcleo de excelência em arte de vanguarda, mas sim pela existência do Jorge Gerdau Johannpeter, que a exemplo de outros mecenas como Nelson Rockefeller, Solomon Guggenheim e Assis Chateaubriand, enxergou na sua trajetória profissional o momento de contribuir com a arte local. Ganhou Porto Alegre, ganhamos uma Bienal.
Do outro lado do rio, Porto Alegre também foi atingido por essa mudança. Sem o nepotismo impositivo de inclusão dos artistas locais, esta foi a primeira edição sem a presença de nenhum gaúcho. Mesmo que discreta e questionável, a participação de alguns nomes nas edições anteriores era como que uma negociata velada, uma pequena propina para a comunidade artistica ficar mais relaxada e se sentir incluída de alguma forma. Como não houve o já tradicional pagamento, a classe reagiu com a formação de duas mostras paralelas : Essa POA é Boa e a Bienal B.
Imagem parcial do pavilhão com primeiro plano no Grupo Jardim Homero – foto Acchuti.
Começando pelo nome "Essa POA é Boa " que parece ser uma campanha de liquidação de varejo, passando pela proposta de grupos inchados e pretenciosos e resultando num conjunto arrogante e com cara de modernoso. Uma elegia a forma e ao cenário e dialogando com seu bairrismo evidente.
Seria injusto incluir todo mundo nesta panela. O melhor exemplo vem do Grupo Intersecção do Desenho (formado por Adauany Zimovski, Antônio Augusto Bueno, Gabriel Netto, Gerson Reichert, Guilherme Dable, James Zortéa, Lilian Maus e Teresa Poester) que apresentam obras em desenho com vigor e frescor estimulantes.

Detalhe desenho de Jaimes Zortéa. grupo Intersecção do Desenho - Essa POA é Boa.
Percorrendo os blogs dos projetos para escrever este artigo, acabo me contaminando com as propostas dos curadores e começo a entender todo o empenho e mobilização realizada por esta centena de artistas em que em sua maioria, por incrível que pareça num país como o nosso , sobrevivem de arte em Porto Alegre. Foram meses de pesquisa, reuniões e trabalho. Mas não mudo minha opinião inicial. Talvez se esta exposição acontecesse em um outro momento, a minha leitura seria outra. Mas ela confrontando a Bienal do Mercosul se esvazia e demostra fisicamente o grande gap que existe entre os mundos teórico-conceitual e o mundo prático-operacional, que é o que opera com o mercado.
Já a Bienal B foi um movimento de base, se é que podemos chamar assim. Sem seleção ou proposta teórica alguma, um grupo de estudantes de artes e mais alguns simpatizantes conseguiram algo memorável: Uma grande rede de pequenas exposições que atingiu mais de 350 “artistas” e 40 espaços expositivos. Graças a um apoio “filantrópico”de uma agencia de propaganda, ganhou mídia televisiva e outdoors e obteve uma visibilidade inesperada. Com quatro meses de duração, movimentou galerias, fundações, lojas e barzinhos que se juntaram a rede na medida do desenvolvimento da ação. Para os supostos artistas, uma oportunidade de incluir uma Bienal (sic!) no seu currículo e para os espaços, uma forma de ganhar mídia e público. A organização amadora e sem compromissos formais, conseguiu uma marca forte e respeito popular. Ganhou apoio da Bienal do Mercosul com a impressão e divulgação na própria Bienal de 40 mil mapas dos locais e dos artistas, apoio que a Essa Poa é Boa recusou.
Criada de uma forma espontânea e sem pretensão de falar nada, a Bienal B acabou dialogando muito mais do que poderia supor. Resolveu o hiato da Bienal do Mercosul com a comunidade local e estendeu a geografia da "arte" para além das fronteiras herméticas dos iniciados. Com qualidade duvidosa mas com quantidade expressiva e grande interesse popular, a mostra se tornou uma espécie de mural livre para a manisfestação artística e estimulou a iniciativa da organização dos artistas e de espaços expositivos de uma forma que pode resultar em algum fruto no futuro, com a continuidade de algum movimento tanto dos artistas quanto dos locais utilizados, já que Porto Alegre tem apenas meia duzia de galerias atuantes no mercado local.
Detalhe do “Cofre” – instalação da artista Kátia Costa do grupo Nós de Novembro – Bienal B – Espaço do Sesc.
Realmente Porto Alegre se inicia em uma nova era. Talvez marcada pelo distanciamento cada vez maior da Bienal do Mercosul , mas também levando a comunidade local a refletir, reagir e se posicionar pensando cada vez mais global e se dando conta que será ela que terá que ir buscar o seu espaço, não ao contrário.
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